O custo de se ter carro de luxo no Brasil

As maiores perdas financeiras que eu já tive em minha vida não foram no mercado financeiro, mas sim na compra do maior passivo que podemos ter: um automóvel. Eu vou contar, em detalhes, a história de dois carros que eu tive e o “ferro” que eu tomei nas duas situações. Espero que, com essas histórias, eu esteja ajudando a outras pessoas pensarem 500 vezes antes de adquirirem um carro, especialmente de luxo.

A história de hoje é a do primeiro carro zero que eu tive, em 1998. Na época eu não tinha a menor educação financeira. Somando a falta de educação financeira com um grande ego o resultado só poderia ser um: desastre financeiro.

A parte do ego é a seguinte: em vez de querer comprar um carro popular que coubesse em meu orçamento como um Gol ou até mesmo um Golf, eu queria um carro de luxo. Aqui vale uma explicação importante. Nesta época eu realmente acreditava que para parecer bem-sucedido um cidadão tinha que aparentar ser rico (o que é beeeem diferente de realmente ser rico), nem que para isso ele tenha de se endividar e “rebolar” para conseguir manter o “passivão”. Esta minha forma de pensar só foi mudar depois de eu ler Pai Rico Pai Pobre e O Milionário Mora ao Lado. De fato, olhando para trás na época talvez nem mesmo um Gol eu pudesse ter (meu carro na época era um Escort XR3 conversível 1992 a álcool; eu era feliz e não sabia)! Eu nunca vou ter como realmente saber, pois na época eu não tinha o menor controle sobre as minhas finanças: não sabia o quanto ganhava e, pior ainda, o quanto gastava. Isso só foi mudar depois que li Independência Financeira, quando passei a ter planilhas controlando cada centavo das minhas receitas e despesas.

Também é preciso colocar em perspectiva que eu estava sendo (pessimamente) influenciado pelo meu editor na época, que queria que eu comprasse um carro de luxo financiado e com as prestações do financiamento sendo deduzidas diretamente dos meus royalties a receber. Oficialmente isto era uma forma de me estimular a estar publicando pela editora dele e a escrever mais livros, mas na realidade era uma maneira de eu não reclamar do fato que ele nunca pagava meus royalties em dia (veja a história completa aqui), além de me “amarrar” à editora. Fora a péssima decisão de financiamento, que me custou uma grana violenta, como irei mostrar.

Mas voltando a 1998, eu queria mesmo uma BMW, mas custando à época mais de R$ 100.000 (se não me falha a memória uma BMW 325 zero estava saindo por R$ 127.000) seria brabo pegar um carro desses (lembrando ainda que na época meu patrimônio líquido era praticamente zero). Então a minha escolha estava entre um Citroën Xantia e um Vectra CD. A escolha caiu em cima do Xantia, por ser tecnologicamente superior ao Vectra e mais barato (mas foi o barato que saiu caro, acredite).
XantiaEu e o meu Xantia 1998/1999 (foto tirada em 2001).

Outra perda nesta brincadeira foi dar o meu Escort XR3 conversível como parte da entrada. Eu havia comprado este carro por R$ 13.900 e a concessionária deu apenas R$ 5.000 por ele, só aí eu já perdi R$ 8.900, uma violência (na realidade mais do que isso porque comprei este Escort financiado e como não mantinha controle de absolutamente nada, não tenho a menor idéia de quanto realmente gastei neste carro).

Vamos aos números:

  • Valor do Carro à vista: R$ 44.500,00
  • Entrada: R$ 20.000,00 (R$ 15.000 em dinheiro + Escort XR3 Conversível 1992 avaliado em R$ 5.000)
  • Saldo devedor (R$ 24.500) financiado com um leasing de 24 meses.
  • Valor total de todas as prestações pagas: R$ 46.252,03
  • Valor total pago: R$ 66.252,03

Vejam só o poder dos juros compostos. Um saldo devedor de R$ 24.500 foi pago por R$ 46.252,03, ou seja, torrei R$ 21.752,03 em juros (88,8% de juros). Isso sem contar o prejuízo que eu tive na sub-avaliação do meu Escort.

Mas o pior ainda estava por vir. Quando resolvi vender o carro, em 2001, o máximo que consegui foi R$ 29.500 (esta bruta desvalorização é típica de carros importados “diferentes”; deveria ter pesquisado isso antes). Ou seja, torrei R$ 36.752,03, mais uma vez sem contar a sub-avaliação do meu carro anterior.

Não estou aqui nem contando gastos com revisões, seguro, gasolina, IPVA, multas e afins, visto que estas despesas você terá com qualquer carro que você decida comprar. Outro problema é que como eu não controlava minhas receitas e despesas de perto, sem qualquer tipo de planilha, não tenho a menor idéia dos gastos desta natureza que eu tive. Só tenho o valor do IPVA de 2001, que foi o ano que eu passei a anotar receitas e despesas com precisão de centavos: R$ 1.144,81. Não chegava a ser dos piores.

Mas tenho o valor total do seguro. Ele foi pago sempre em 10 parcelas. As parcelas começaram a R$ 333,52 por mês em 1998/1999, foi a R$ 557,72 em 1999/2000 e depois a R$ 483,41 em 2000/2001.

  • 1998: R$ 334,00
  • 1999: R$ 3.116,58
  • 2000: R$ 5.425,76
  • 2001: R$ 3.867,28
  • Total durante a posse do carro: R$ 12.743,62

É interessante rever essas burrices financeiras que fazemos, para tentarmos não cometê-las novamente. Bem é isso por hoje, em breve posto o grande rombo que eu tive com um segundo carro de luxo que eu tive, e desta vez eu tenho absolutamente todas as despesas com precisão de centavos. Aguardem.