O Segredo dos Ricos – Robert Kiyosaki

o-segredo-dos-ricosEste livro foi uma experiência que o Kiyosaki fez em ir escrevendo um livro na Internet de acordo com o retorno dado pelos leitores e no meio da crise econômica norte-americana. A idéia era apresentar o que seriam as oito novas “leis” do dinheiro.

Só que este livro é ruim, muito ruim. Basicamente Kiyosaki leu meia dúzia de livros e se meteu a falar sobre o que não sabe. Fica patente que ele após ler o excelente livro do amigo dele Michael Maloney ele resolveu escrever um livro com as mesmas idéias só que assinado por ele. Sinceramente ele faria um trabalho muito melhor se tivesse escrito somente uma frase “Leia o livro Como Investir em Metais Preciosos para entender essa crise”!

Mas vamos aos detalhes. Primeiro, Kiyosaki continua com a mania de repetição, mas nesse livro ele a levou ao extremo: tudo se resume ao fato de em 1971 os EUA terem saído do padrão ouro. Ele repete isso ad nauseum e não apresenta nenhuma informação nova.

No geral, as principais explicações que seriam “novas” bem como diversos “fatos” estão completamente equivocados. Apenas alguns exemplos (minha tradução; os números das páginas listados abaixo referem-se à edição original em inglês):

“Se você tiver a chance de ir à Cidade do Cabo, na África do Sul, por favor vá. A Cidade do Cabo é uma das mais belas cidades do mundo. É uma cidade rica e moderna. É excitante e vibrante. E eu acredito que você possa ver o futuro do mundo na Cidade do Cabo. Dirigindo a partir do aeroporto, tudo o que você vê são milhas e milhas de favelas e centenas de milhares de pessoas sobrevivendo à margem da vida civilizada. Quando eu dirijo perto das favelas e me aproximo da Cidade do Cabo eu me pergunto se não estamos olhando para o futuro dos EUA. Eu me pergunto se um dia a nossa classe média não estará vivendo em favelas.” (p. 108-9)

Uma visão completamente equivocada e preconceituosa da África do Sul. Eu já estive na África do Sul por duas vezes. Você não muda um país que viveu em um forte regime de segregação racial em apenas poucos anos. A África do Sul é um dos maiores produtores de ouro, prata e platina do mundo. Desde o fim do Apartheid o governo deles passou a concentrar todos os esforços na distribuição de renda, e aos poucos famílias que viviam em favelas estão morando em boas casas. Eu visitei o Soweto, que era o maior favelão durante o Apartheid e que hoje é um bairro de classe média. Além disso Kiyosaki não sabe chongas do que está falando sobre favelas. Se nem no Brasil com todas as crises a classe média não virou favelada, esta posição é simplesmente impossível de ocorrer nos EUA. Meu chute é que em 20 anos não haverá tantas favelas assim na África do Sul, pelo o que eu pude ver pessoalmente o que o governo deles está fazendo por lá.

“Nos anos 70, quando eu comecei o meu primeiro negócio, eu rapidamente me tornei um viajante de milhões de milhas pela United e pela PanAm. Hoje eu consigo fazer mais negócios sentado em meu escritório usando a Internet para alcançar mais pessoas em menos tempo e gastando menos energia — gastando muito menos dinheiro. Enquanto eu faço mais dinheiro, as companhias aéreas sofrem, pois viajantes de negócios como eue descobriram uma maneira mais fácil e mais barata de se fazer negócios com pessoas ao redor do mundo”. (p. 112)

Esta noção está completamente equivocada. De acordo com o Ministério do Transporte norte-americano (DOT, Department of Transport), o tráfego aéreo de passageiros nos EUA aumentou 66% comparando as estatísticas de 1993 (ou seja, antes da internet existir publicamente) com as de 2008. E isso depois dos atentados de nove de setembro, que “aumentou” a segurança e tornou mais difícil a obtenção de vistos de viagem. A razão pela qual as companhias aéreas norte-americanas estão sofrendo não tem absolutamente nada a ver com a Internet, mas sim com a desregulamentação do setor, ocorrida em 1978, que permitiu competição e removeu a política de preços controlados pelo governo. A propósito, a PanAm faliu no final de 1991, muito antes da Internet se popularizar.

“Em vez de voltar a navegar após a guerra ou voar para uma empresa aérea comercial, eu escolhi ser um empreendedor”. (p. 112)

Negativo, o senhor mesmo falou em todos os seus outros livros que após a Guerra do Vietnã você foi trabalhar para a Xerox. Para mim isso chama-se “empregado” e não “empreendedor”.

“Em 1965 eu me tornei um dos dois estudantes da minha escola escolhidos pelo Congresso Nacional dos EUA para estudar na academia federal militar que treinava oficiais para a marinha mercante”. (p 160)

Esta frase da maneira que está redigida está equivocada. O Congresso Nacional dos EUA não escolhe alunos para as suas academias militares; o processo de entrada possui várias etapas e uma delas é receber uma indicação de um deputado federal ou senador. Tendo conseguido a indicação de um deputado federal não significa que foi o Congresso Nacional que o selecionou.

“Abrir uma empresa na bolsa de valores foi o que o Coronel Harland Sanders fez, aos 65 anos de idade.” (p. 212)

Esta frase e toda a história do KFC publicada nesta página está completamente errada. Sanders vendeu o KFC em 1964 (aos 74 anos de idade) e o KFC só foi se tornar uma empresa de capital aberto em 1966 (portanto ele tinha 76 anos de idade), dois anos após Sanders já não ser mais sócio da KFC. A história que Sanders ficou procurando alguém que comprasse sua receita também é inverídica, pois ele desde o início franqueou o seu negócio e quando ele vendeu a empresa o KFC já tinha mais de 600 franqueados. Se o Kiyosaki tivesse se dado o trabalho de abrir o site da KFC teria lido a história correta.

Ao final do livro Kiyosaki diz que o site do livro foi um sucesso por ter tido mais de “35 milhões de hits de 167 países”. “Hits” não é medida de tráfego, um erro básico de quem não tem a menor idéia de como um site funciona. Um “hit” é uma requisição de qualquer tipo feita ao servidor. Se uma página HTML tiver 10 imagens, esta gerará 11 “hits” (um para o arquivo da página e 10 para as imagens). Portanto “hits” não servem como estatísticas de acesso a sites.

Em resumo, fique longe dessa “bomba”. Se quer ler um excelente livro sobre a economia atual, leia Como Investir em Metais Preciosos, de Michael Maloney. Como disse, Kiyosaki tentou escrever com suas próprias palavras o que Maloney escreveu mas só falou abobrinha.

Obs: Li este livro no original em inglês e por isso não tenho como avaliar a qualidade da tradução/adaptação.

Conclusão Final: Não Recomendado

Ficha Técnica

Título: O Segredo dos Ricos
Título Original: Conspiracy of the Rich
Autor: Robert Kiyosaki
Número de Páginas: 216 (português), 272 (inglês)
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